Lino Tavares
Nelson Ned ganhou fama e dinheiro com essa música,
mas não se deu conta, no auge do sucesso, de que no âmago da expressão que
intitula a canção reside uma verdade nua e crua, consubstanciada no fato de que
vivemos num mundo efêmero, onde "nada fica... nada ficará", como está
na letra da referida melodia.
Inebriado com o sucesso relâmpago e talvez até
surpreso consigo mesmo, por haver se tornado tão grande no mercado fonográfico,
não obstante ser fisicamente tão pequeno, o cantor, como disse certo dia em um
programa de televisão, entregou-se aos prazeres aparentemente irrecusáveis da
carne, ingressando no mundo das drogas, do álcool e das conquistas libidinosas
de fácil acesso aos que têm "bala na agulha" para comprar tudo,
inclusivo o falso amor.
Algum tempo depois de entrar nesse labirinto que
lhe custou a perda de familiares e de espaço nos corredores largos da fama,
Nelson Ned, consciente do passo em falso que dera nessa caminhada quase sem
volta, procurou redimir-se de seus desvios de conduta, passando a cantar canções evangélicas, após ter-se convertido ao neo pentecostalismo,
tendo conquistado o Disco de Ouro já no seu primeiro lançamento gospel.
Fora dos holofotes e portando enfermidade que o
impedia de continuar fazendo a única coisa que sabia fazer: cantar, o pequeno
grande cantor desencarnou neste 5 de janeiro de 2014, deixando como legado aos
estudiosos e apreciadores da música brasileira uma invejável história de
sucessos, que inclui gravações que marcaram época, além de apresentações
artísticas que o levaram a pisar em palcos famosos como o Carnegie Hall, de
Nova York, onde brilhou em quatro oportunidades, com lotação total.
Entre seus vários sucessos, vale lembrar, além do
mais famoso deles, "Tudo
passará", as bem sucedidas gravações
em português e espanhol realizadas entre 1960 e 1999, tais como "Eu
sonhei que tu estavas tão linda/Prelúdio à volta", "Meu jeito de
amar", "Penso em você",
"El romântico de América", "Jesus está voltando",
"Seleção de ouro/20 sucessos" e "Os melhores tangos e boleros.
algo que lhe rendeu no curso da extraordinária carreira cerca de 45 milhões de
cópias vendidas.
Nelson Ned, que partiu aos 66 anos, era mineiro de
Ubá, sendo natural, portanto, da mesma cidade
em que nasceu Ary Barroso, autor de
"Aquarela do Brasil". Como o grande conterrâneo, também compôs belas
canções gravadas por artistas como Moacyr Franco, Antônio Marcos, Agnaldo
Timóteo e outros. De seus altos e baixos na carreira, fica como lição a
consciência de que ninguém deixa de chegar ao topo por ter a perna curta,
tampouco está livre de 'beijar a lona' por estar no mais alto degrau da
fama.


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